segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Duas Histórias














Iam duas histórias amenas
pelos seus conhecidos caminhos
cuidando de singulares amenidades
tendo pensamentos comuns
falando amenas verdades
Ambas as histórias
iam na mesma direção
mas uma estava bem à frente
e a outra seguia seu ritmo próprio
cuidando pra não andar na contramão
Se encontram, então, nas suas distâncias
e passam a falar concordâncias
As diferenças se assemelham
em semelhanças amenas
e os interesses se aproximam
nas distâncias que as orientam
Duas histórias convergem
conversam, dialogam, se relacionam
passam a compor a mesma trama
do enredo que cria o drama
E a crítica dessa história
diz que há mais prosa poética
do que poesia
e por mais que a vida
queira por um ponto
vem a ficção e eterniza num conto

Cleonice

Definição de Muiteza

Certeza

A morte acena na janela
bate na porta
toca a campainha
A morte avisa sempre
quando nascemos diz 
que um dia vamos morrer
Só ela é a única certeza
por isso prefiro as dúvidas
O incerto é mais confiável
Não dou crédito a certezas eternas
A morte chega com aviso
Sem aviso quem chega é a vida
nos pega todos os dias sem que saibamos
se devemos parar, se devemos seguir

A vida é feita de improviso
de momentos que nem imaginaríamos viver
e vivemos todos os dias
pro bem ou pro mal
na curva ou na reta
em liberdade ou na condicional
A morte já avisou
Surpresa quem nos traz é a vida

Cleonice Lopes-Flois

Realidade

Que loucura esta realidade em que trafegamos
Nossas vidas parecem veículos desgovernados
guiados pelas mãos de um motorista indeciso: nós
Não escolhemos rotas
seguimos com destino a lugar nenhum
Viajamos num itinerário de ida e volta
entre a saída de casa e o retorno
entre duas batidas do ponto
Fazemos deste trajeto
o lazer nosso de todos os dias
com direito a descanso merecido diante da Netflix
e sonhos noturnos de férias dezembrinas

Cleonice Lopes-Flois

Às vezes


Parte de um todo


Líquido


Último dia

Último dia
Na sala de aula
o sorriso paira
sem preocupação
O papéis não incomodam
mesmo que se avolumem
em proporção

No último dia
Todos os motivos
são razões para lembrar
E até os dias ruins
se tornam dias bons
pra se recordar
O último dia
só é o último
porque houve um primeiro
mas nenhum deles
foi tão importante
quanto o ano inteiro

Cleonice Lopes-Flois

Dor da Gente


Dor da gente
Outrora sangrar era raro
Difícil acontecer um sangramento
na vida, na arte, na ficção
Arrisco dizer que, agora, sangrar
se tornou um feito comum
Muitos sangram suas vidas
até que elas se extingam
Outros sangram no papel
para tornar verossímil
a história que contam
Ouso acreditar que o difícil
é parar esses sangramentos,
fazer pontos nas feridas da existência
e seguir vivendo enquanto os pontos
ainda não estão cicatrizados
E mais. Loucamente acrescento
que dificuldade maior
é a dolorosa recaída por exposição
à uma situação semelhante à fatídica
sem estar recuperado
do desventurado event
Então sangrar é fato contado,
mas seguir com a vida se esvaindo
pelos pontos mal costurados
e novamente abertos antes de cicatrizar,
não é contado,
porque a dor da gente
não vale o preço de mercado
Cleonice Lopes-Flois

Linearidade

Linearidade
(...)
Minha vida não é linear
Minha história é cheia de vai e vem
que às vezes não sei
se estou indo ou voltando
Pra variar, me perco nesse trajeto
e não me acho por décadas a fio
Aliás, nem me acho
só me procuro
Essa falta de linearidade
me deixa presa no espaço-tempo
Meu percurso é como previsão do tempo
pro verão brasileiro
não o compreendo
apenas sigo
Cleonice Lopes-Flois

Entre retas e curvas

Entre retas e curvas
Por mais reto que eu tente seguir
Uma linha reta não norteia a minha estrada
Tampouco as ideias que estão por vir
Reto não é meu raciocínio
Muito menos meu pensamento
Vivo de digressões, memórias, flashbacks
que não me levam a nenhum lugar
mas me fazem ser quem sou
Não sou reta, sequer sou plana
Sou curva, redonda, complexa
vivo em círculos girando ao redor de mim
Só as curvas podem me salvar
por horas, dias, meses e anos
Cleonice Lopes-Flois

Não sei fugir

Não sei fugir
Na guerra velada
entre o tempo e as realizações
Já perdi há muitas décadas
Me prostrei há várias estações


Fui vencida por arma inimiga
aquela que minha mão segurou
que meus lábios deram aval
e a folha do calendário desfolhou

As derrotas que carrego comigo
arqueiam minhas costas
embrutecem meus modos
me fazem envelhecida
antes do quarto decênio
Essa guerra velada
já foi declarada
em alto e triste estampido
como bala de chumbo
que passa raspando
em seu fatal zunido
Na guerra declarada
que já foi velada
e hoje é zunido
o gosto da morte sinto na boca
ouço no vento o seu ruído
Essas derrotas que tive
são o que de real tenho agora
Minhas parceiras de estrada
de sol e de chuva e de pele marcada
Companheiras de um tempo
que nem por um momento desejei
se não fujo de imediato
é porque esse ato
eu, declaradamente, não sei

Cleonice Lopes-Flois

Ressonhar

Ressonhar
Estou perdida na distância
dos sonhos que sempre tive
Nublados pela longitude
do tempo de infância
em que só de sonhos se vive

Longe de mim agora
nesse tempo de sonhos desfeitos
Ressonhar é o que me resta
para aplacar a vergonha das derrotas
e a tristeza que invade o peito
Perdidos na distância
seguem muitos sonhos meus
Alguns que esqueci de sonhar
Outros que esqueceram de mim
Todos fragmentos do meu eu

Cleonice Lopes-Flois

Chuva

Percebo os pingos de um frescor sem fim
Na chuva que cai lá fora
Tantas chuvas já passaram por mim
Mas não me deixei molhar por nenhuma delas

Multidão de Solitários

Multidão de solitários
A multidão de solitários
segue na rede de seguidores
sentindo-se popular e famosa
acolhida por um grupo que a conhece
apenas por trás da máscara virtual
Mais que uma centena de amigos
faz a cada dia que navega
nesse lugar imaginário
nesse universo que participa sem vivenciar
como sendo um lugar real
Cleonice Lopes-Flois