segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Não sei fugir

Não sei fugir
Na guerra velada
entre o tempo e as realizações
Já perdi há muitas décadas
Me prostrei há várias estações


Fui vencida por arma inimiga
aquela que minha mão segurou
que meus lábios deram aval
e a folha do calendário desfolhou

As derrotas que carrego comigo
arqueiam minhas costas
embrutecem meus modos
me fazem envelhecida
antes do quarto decênio
Essa guerra velada
já foi declarada
em alto e triste estampido
como bala de chumbo
que passa raspando
em seu fatal zunido
Na guerra declarada
que já foi velada
e hoje é zunido
o gosto da morte sinto na boca
ouço no vento o seu ruído
Essas derrotas que tive
são o que de real tenho agora
Minhas parceiras de estrada
de sol e de chuva e de pele marcada
Companheiras de um tempo
que nem por um momento desejei
se não fujo de imediato
é porque esse ato
eu, declaradamente, não sei

Cleonice Lopes-Flois

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