Porto Seguro
Vivemos em
relacionamentos que nunca imaginamos, mas, se pensamos em sair deles sentimos
uma sensação de desamparo como se fossem portos seguros para nós, porém não tão
portos e nem tão seguro quanto imaginamos. Há uma falsa segurança no que temos
há mais tempo como se o fato de ser conhecido, familiar, seja o suficiente. A
segurança de um porto é momentânea, não perdura mais que o tempo do embarque e
desembarque, não vai além dos instantes em que chegamos e partimos.
Um porto é um lugar
nenhum. Pode ser frio pela falta de calor das nossas gargalhadas ou quente pela
presença das nossas lembranças. Um porto é uma parte da nossa história. Uma parte
que se mescla com outras formando intersecções, formando encontros entre o que
conhecemos e o desconhecido.
Mantemos relações pela
comodidade do já visto, do já dito, do já sentido. Há um receio, um medo, um
desconforto com relação ao que não conhecemos, e por isso, muitas de nós,
incontáveis vezes, prefere o lugar comum do desconhecido.
Temos atitudes, fazemos
escolhas, assumimos funções que, em algum momento nos estimulavam, despertavam
curiosidade e nos enchiam de adrenalina, mas com o passar do tempo e com as
nossas evoluções naturais de seres humanos, não representam mais o que
pensamos, tampouco quem somos. Seguir fazendo o que sempre fazíamos já não é
mais possível, pois se nossos quereres mudam, mudarão também nossos fazeres. Se
não acreditamos mais no que acreditávamos não é possível agir da mesma maneira.
Exigir isso de nós mesmos é estupidez ou suicídio.
Faz parte do ciclo da
vida que tudo ou quase tudo se altere ao nosso redor, e essas alterações vão
nos atingir cedo ou tarde. Insistir em tentar ser a mesma pessoa que entrou no
navio é insano. Somos alterados por cada paisagem que vemos, pelas relações que
temos, pelo mar que observamos, pelo vento que nos acaricia ou que nos agride,
pelo balanço do ir e vir, pelo tempo, pelo tempo, pelo tempo.
Quem começa uma jornada
não são os mesmos que a terminam. As mudanças são transformações que ocorrem em
cada um, de formas diferentes e no devido tempo. Ao longo do caminho nos
tornamos quem somos, mas aqueles que éramos no início e que seremos no final,
também somos nós, apenas em momentos distintos. Todos as transformações nos
levam aonde devemos ir. São bênçãos que são derramadas sobre nós assim como é
uma dádiva poder observar nossa evolução.
Fazer escolhas não é
trair um pensamento que tínhamos no início da trajetória ou um deixar de dar
valor a algo ou alguém. Fazer uma escolha é uma processo natural assim como é
natural dar mais um passo. Escolher se esse passo é para a direita ou para a
esquerda, se é de salto alto ou sapatilha, é algo tão particular, tão pessoal
quanto é a decisão de dar mais um passo ou não. Não é saudável julgar as
escolhas essenciais que precisamos fazer, pois todas, em uma hora ou outra, terão
que ser feitas. A própria não escolha é uma decisão, é uma escolha feita pelos
motivos, pelas perguntas e pelas respostas que temos naquele momento. Podemos
passar muito tempo nessa escolha de ficar ou não num porto seguro, mas em algum
momento isso não será suficiente, poderá causar tristeza e dor.
Muitas vezes não
fazemos escolhas por medo de que elas nos levem ao sofrimento, mas já há um
sofrimento velado na não escolha, na escolha do que pensamos ser o que os
outros esperam de nós. Para não nos sentirmos desamparados das falsas certezas
e seguranças, precisamos tomar decisões. Acredito sinceramente no poder de uma
decisão para encarar todas as nossas escolhas. Esse é o porto seguro para mim:
o poder de uma decisão.
Cleonice


