terça-feira, 13 de junho de 2017

Porto Seguro

Vivemos em relacionamentos que nunca imaginamos, mas, se pensamos em sair deles sentimos uma sensação de desamparo como se fossem portos seguros para nós, porém não tão portos e nem tão seguro quanto imaginamos. Há uma falsa segurança no que temos há mais tempo como se o fato de ser conhecido, familiar, seja o suficiente. A segurança de um porto é momentânea, não perdura mais que o tempo do embarque e desembarque, não vai além dos instantes em que chegamos e partimos.
Um porto é um lugar nenhum. Pode ser frio pela falta de calor das nossas gargalhadas ou quente pela presença das nossas lembranças. Um porto é uma parte da nossa história. Uma parte que se mescla com outras formando intersecções, formando encontros entre o que conhecemos e o desconhecido.
Mantemos relações pela comodidade do já visto, do já dito, do já sentido. Há um receio, um medo, um desconforto com relação ao que não conhecemos, e por isso, muitas de nós, incontáveis vezes, prefere o lugar comum do desconhecido.
Temos atitudes, fazemos escolhas, assumimos funções que, em algum momento nos estimulavam, despertavam curiosidade e nos enchiam de adrenalina, mas com o passar do tempo e com as nossas evoluções naturais de seres humanos, não representam mais o que pensamos, tampouco quem somos. Seguir fazendo o que sempre fazíamos já não é mais possível, pois se nossos quereres mudam, mudarão também nossos fazeres. Se não acreditamos mais no que acreditávamos não é possível agir da mesma maneira. Exigir isso de nós mesmos é estupidez ou suicídio.
Faz parte do ciclo da vida que tudo ou quase tudo se altere ao nosso redor, e essas alterações vão nos atingir cedo ou tarde. Insistir em tentar ser a mesma pessoa que entrou no navio é insano. Somos alterados por cada paisagem que vemos, pelas relações que temos, pelo mar que observamos, pelo vento que nos acaricia ou que nos agride, pelo balanço do ir e vir, pelo tempo, pelo tempo, pelo tempo.
Quem começa uma jornada não são os mesmos que a terminam. As mudanças são transformações que ocorrem em cada um, de formas diferentes e no devido tempo. Ao longo do caminho nos tornamos quem somos, mas aqueles que éramos no início e que seremos no final, também somos nós, apenas em momentos distintos. Todos as transformações nos levam aonde devemos ir. São bênçãos que são derramadas sobre nós assim como é uma dádiva poder observar nossa evolução.
Fazer escolhas não é trair um pensamento que tínhamos no início da trajetória ou um deixar de dar valor a algo ou alguém. Fazer uma escolha é uma processo natural assim como é natural dar mais um passo. Escolher se esse passo é para a direita ou para a esquerda, se é de salto alto ou sapatilha, é algo tão particular, tão pessoal quanto é a decisão de dar mais um passo ou não. Não é saudável julgar as escolhas essenciais que precisamos fazer, pois todas, em uma hora ou outra, terão que ser feitas. A própria não escolha é uma decisão, é uma escolha feita pelos motivos, pelas perguntas e pelas respostas que temos naquele momento. Podemos passar muito tempo nessa escolha de ficar ou não num porto seguro, mas em algum momento isso não será suficiente, poderá causar tristeza e dor.
Muitas vezes não fazemos escolhas por medo de que elas nos levem ao sofrimento, mas já há um sofrimento velado na não escolha, na escolha do que pensamos ser o que os outros esperam de nós. Para não nos sentirmos desamparados das falsas certezas e seguranças, precisamos tomar decisões. Acredito sinceramente no poder de uma decisão para encarar todas as nossas escolhas. Esse é o porto seguro para mim: o poder de uma decisão.

 Cleonice

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