segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Escolhas


Há um ar de melancolia
Quando se finda a tarde.
E no peito uma saudade tardia
Começa a fazer alarde.

Sopra um vento meio triste
Que mal balança as folhas.
E, em mim, um sentimento insiste
Repensar velhas escolhas.

O tempo não me acompanha e eu o caço
Dentro de mim, no meu compasso.
Para que siga meu ritmo e não me atropele
Não me mostre, nem me exponha, nem revele.

Vai a tarde, vem a noite.
E com ela uma angústia que arde.
É a saudade de um tempo que, covarde
Se fora, deixando a lembrança como açoite.

E então, em meio às dúvidas corriqueiras.
Lembro das escolhas que fizeram
De mim o que sou. Tão simples eram.
Mas capazes de afetar vidas inteiras.

Ao começar não se pensa em fracasso.
Estava certa que a decisão certa fora tomada.
Mas passa o tempo e não importa o que faço.
Às vezes me vejo na encruzilhada.
                                                   
Reviso minha história. Eu no tempo e no espaço
Repenso as escolhas. Novos planos traço.
Mas pouco muda, pois cada escolha efetuada.
É escolha do coração. – Mais nada!

Cleo...

Árvore


Quase se foram todas as suas folhas.
Não tem mais flores, nem mais frutos.
Para que eu cheire... Para que eu colha...
Teu corpo é deserto de atributos!?

As poucas folhas que ainda restam
São incertas, frágeis, sós.
Ao balançar com o vento atestam:
“Iremos também nós!”

Já fostes toda verde. Verde exuberância
Seus galhos – finos, retos, retorcidos...
Mal se viam. Cobertos com elegância
Por esvoaçantes vestidos.

O que pensavas ser teu/tua
Deixou-te/deixastes ao longo da vida.
Estás agora semidespida.
Mais um pouco e ficarás nua!

Já não abrigas os pássaros ao anoitecer
Tampouco os homens durante o dia
Todo seu valor irás perder?
Não! Ainda oferecerás tua companhia.

Cleo...

Um lago


Coisa mais triste não há:
Saber que dentro do peito trago
Um coração onde já...
Houvera um oceano; Agora só (há) um lago.

Fora um coração vivo e forte
Que sorria e amava; amava e sorria.
Não temia a dor, nem a morte.

Com o tempo, então.
Descobri uma realidade que insulta.
Conheci quedas, fracasso, desilusão...
Senti o peso da vida adulta.

A água que escoara do oceano que aqui havia
Trouxe o que eu não temia
E ao ver morrer muitos sonhos, fiquei um pouco vazia.

Cleo...

A Paixão Assusta


Quando a paixão chega, assusta.
Mesmo sendo sonhada, vem sem aviso.
Aos padrões e regras, não se ajusta.
O que era norma vigente torna lei do improviso.

Quando a paixão chega, assusta.
Porém a vida sem ela assusta muito mais.
Na sua presença, do fel e do doce se degusta.
Mas sua ausência traz ecos de ais.

Quando chega, do querer se apossa.
Do pensar, do agir, faz troça.
Toda a vida desajusta:

É um sentimento maravilhoso
Que ao que perdeu, dá um sentido novo...
Tira o fôlego, mas assusta.

Cleo...

De que povo é essa nova ortografia?


Sou escritora, crio minha própria linguagem.
Sou poetisa, transformo letras em bilhetes de passagem.
Posso moldar as sílabas pra dar a forma desejada
Posso criar meu próprio signo que os gramatiqueiros não vão entender nada.

Acho a lingüística importante
Mas não quero me ocupar dela.
A literatura é mais interessante
É mais prazeroso trabalhar com ela.

Mudaram as regras de ortografia
Vamos ter que nos adaptar de novo.
Será que agora vamos escrever a língua do povo?
É de um povo, mas não do nosso, essa grafia!

Quem entende esse país
Quer ser tão independente.
É incoerente. Não escreve o que diz
Não tem ortografia com a cara da sua gente.

Precisamos de uma nova ruptura
Pois avançamos tanto e progredimos pouco.
Haja vista que o academicismo ainda diz que é louco
Aquele que aceita as novas tendências como literatura.

Não somos descendentes de ousados modernistas
Que faziam experimentações em busca de uma linguagem autêntica?
Ninguém quer lixo. Queremos somente o que nos identifica
Somos Antropófagos-Pau-Brasil, não somos chauvinistas.

Precisamos verso a verso descabralizar o Brasil
Não nos submeter a diplomáticas imposições.
Mal um século que nos soltamos das metrificações
E estamos voltando a ser colônia do Português gentil.

Cleo...

Indignação


Indignação...
Indigna ação.
Indigna nação:
Indígena sem chão...
Indigente sem pão...
Indignas são!?

Indignação...
Indigna nação.
Indigna ação:
Indignar-se diante da televisão...
Indignar-se sem reação...
Indignos são?!

Indignação...
Indigna ação.
Indigna nação:
Indigna corrupção...
Indigna eleição...
Indignas são!!

Indignação...
Indigna nação.
Indigna ação:
Indignar-se com a Educação...
Indignar-se com a falta de Educação...
Indignar-se em vão...
Indignas são!
Indignos somos??

Cleo...