Vapor do chá
Tarde chuvosa. Eu e uma
xícara de chá conversamos longamente na mesa da cozinha. Olhamos a paisagem
molhada, pensamos securas da vida e nos conformamos com a umidade do dia.
Enquanto repriso trechos da peça trágico-cômica da minha vida privada, o
embaçado se faz presente nas janelas do cômodo e nas lentes dos meus óculos e o
vapor que sai da xícara e da minha boca, se espalha pelo ar, umedece meus olhos
e minhas narinas. O líquido que tenta escorrer de ambos não é mera
coincidência.
Revisitar antigos enredos
desde o manuscrito e as lembranças iniciais de sua feitura trás, por vezes,
sensações análogas às vivenciadas no tempo primeiro e, o que foi sentido volta
a ser sentido, mas nunca do mesmo modo, nunca com a amplitude daquele instante.
Primeiramente, porque não sou mais a mesma, e não há como sentir tudo igual
porque o igual é faz de conta. Nada é igual, tudo se altera, o tempo, o espaço,
a ação, a personagem e, assim, o sentimento rememorado é trazido à tona pelo
vapor do chá, não podendo ser o mesmo vivenciado em tempo passado.
O que foi sentido
ganhou um invólucro, deixou de estar na carne viva do momento de sentir, do
instante em que a pulsão dor/amor/decepção/êxtase surpreendeu os sentidos. Não
é uma máscara, mas uma casca para a ferida que ainda dói, que ainda requer
cuidados, que ainda pode se abrir ou ser novamente ferida pelas ações que
vierem a ser tomadas. Não se faz um mascaramento do fato, mas tenta-se viver
socialmente em equilíbrio, sem rompantes de vitimismo ou encolhimentos autopiedosos
dentro da própria casca. Tenta-se manter a sanidade intelectual, a criatividade
artística, a saúde física, a libido em alta, os sonhos vivos, mas a
sensibilidade de poetisa umedecem meus olhos vez ou outra.
Cleonice

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