terça-feira, 23 de maio de 2017

Vapor do chá

Tarde chuvosa. Eu e uma xícara de chá conversamos longamente na mesa da cozinha. Olhamos a paisagem molhada, pensamos securas da vida e nos conformamos com a umidade do dia. Enquanto repriso trechos da peça trágico-cômica da minha vida privada, o embaçado se faz presente nas janelas do cômodo e nas lentes dos meus óculos e o vapor que sai da xícara e da minha boca, se espalha pelo ar, umedece meus olhos e minhas narinas. O líquido que tenta escorrer de ambos não é mera coincidência.
Revisitar antigos enredos desde o manuscrito e as lembranças iniciais de sua feitura trás, por vezes, sensações análogas às vivenciadas no tempo primeiro e, o que foi sentido volta a ser sentido, mas nunca do mesmo modo, nunca com a amplitude daquele instante. Primeiramente, porque não sou mais a mesma, e não há como sentir tudo igual porque o igual é faz de conta. Nada é igual, tudo se altera, o tempo, o espaço, a ação, a personagem e, assim, o sentimento rememorado é trazido à tona pelo vapor do chá, não podendo ser o mesmo vivenciado em tempo passado.

O que foi sentido ganhou um invólucro, deixou de estar na carne viva do momento de sentir, do instante em que a pulsão dor/amor/decepção/êxtase surpreendeu os sentidos. Não é uma máscara, mas uma casca para a ferida que ainda dói, que ainda requer cuidados, que ainda pode se abrir ou ser novamente ferida pelas ações que vierem a ser tomadas. Não se faz um mascaramento do fato, mas tenta-se viver socialmente em equilíbrio, sem rompantes de vitimismo ou encolhimentos autopiedosos dentro da própria casca. Tenta-se manter a sanidade intelectual, a criatividade artística, a saúde física, a libido em alta, os sonhos vivos, mas a sensibilidade de poetisa umedecem meus olhos vez ou outra.
Cleonice

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