quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Melancolia Hoje nem a chuva caindo mansamente consegue espanar a melancolia que forra meu peito É como se meu espírito estivesse ensopado de lágrimas úmidas salgadas frias Como se eu tivesse dormido a beira de um lago cujas margens não secam nunca e umedecem meus propósitos Não há descanso pra mim nem durante o sono que sonho ter Faz-se noite no meu espírito

terça-feira, 13 de junho de 2017

Porto Seguro

Vivemos em relacionamentos que nunca imaginamos, mas, se pensamos em sair deles sentimos uma sensação de desamparo como se fossem portos seguros para nós, porém não tão portos e nem tão seguro quanto imaginamos. Há uma falsa segurança no que temos há mais tempo como se o fato de ser conhecido, familiar, seja o suficiente. A segurança de um porto é momentânea, não perdura mais que o tempo do embarque e desembarque, não vai além dos instantes em que chegamos e partimos.
Um porto é um lugar nenhum. Pode ser frio pela falta de calor das nossas gargalhadas ou quente pela presença das nossas lembranças. Um porto é uma parte da nossa história. Uma parte que se mescla com outras formando intersecções, formando encontros entre o que conhecemos e o desconhecido.
Mantemos relações pela comodidade do já visto, do já dito, do já sentido. Há um receio, um medo, um desconforto com relação ao que não conhecemos, e por isso, muitas de nós, incontáveis vezes, prefere o lugar comum do desconhecido.
Temos atitudes, fazemos escolhas, assumimos funções que, em algum momento nos estimulavam, despertavam curiosidade e nos enchiam de adrenalina, mas com o passar do tempo e com as nossas evoluções naturais de seres humanos, não representam mais o que pensamos, tampouco quem somos. Seguir fazendo o que sempre fazíamos já não é mais possível, pois se nossos quereres mudam, mudarão também nossos fazeres. Se não acreditamos mais no que acreditávamos não é possível agir da mesma maneira. Exigir isso de nós mesmos é estupidez ou suicídio.
Faz parte do ciclo da vida que tudo ou quase tudo se altere ao nosso redor, e essas alterações vão nos atingir cedo ou tarde. Insistir em tentar ser a mesma pessoa que entrou no navio é insano. Somos alterados por cada paisagem que vemos, pelas relações que temos, pelo mar que observamos, pelo vento que nos acaricia ou que nos agride, pelo balanço do ir e vir, pelo tempo, pelo tempo, pelo tempo.
Quem começa uma jornada não são os mesmos que a terminam. As mudanças são transformações que ocorrem em cada um, de formas diferentes e no devido tempo. Ao longo do caminho nos tornamos quem somos, mas aqueles que éramos no início e que seremos no final, também somos nós, apenas em momentos distintos. Todos as transformações nos levam aonde devemos ir. São bênçãos que são derramadas sobre nós assim como é uma dádiva poder observar nossa evolução.
Fazer escolhas não é trair um pensamento que tínhamos no início da trajetória ou um deixar de dar valor a algo ou alguém. Fazer uma escolha é uma processo natural assim como é natural dar mais um passo. Escolher se esse passo é para a direita ou para a esquerda, se é de salto alto ou sapatilha, é algo tão particular, tão pessoal quanto é a decisão de dar mais um passo ou não. Não é saudável julgar as escolhas essenciais que precisamos fazer, pois todas, em uma hora ou outra, terão que ser feitas. A própria não escolha é uma decisão, é uma escolha feita pelos motivos, pelas perguntas e pelas respostas que temos naquele momento. Podemos passar muito tempo nessa escolha de ficar ou não num porto seguro, mas em algum momento isso não será suficiente, poderá causar tristeza e dor.
Muitas vezes não fazemos escolhas por medo de que elas nos levem ao sofrimento, mas já há um sofrimento velado na não escolha, na escolha do que pensamos ser o que os outros esperam de nós. Para não nos sentirmos desamparados das falsas certezas e seguranças, precisamos tomar decisões. Acredito sinceramente no poder de uma decisão para encarar todas as nossas escolhas. Esse é o porto seguro para mim: o poder de uma decisão.

 Cleonice

terça-feira, 6 de junho de 2017

Benevolência com quem?

Certa vez, numa incerta situação, precisava decidir entre um sim e um não. Como é difícil tomar algumas decisões, aliás, para uma virginiana decidir exige muita análise. Apesar de ser super a favor da praticidade e do gerenciamento estratégico das atividades diárias para eficácia de toda e qualquer situação evitando assim, gastos de energia desnecessários, o pensar e repensar a que me condiciono é, quase sempre, uma tarefa exaustiva, pois até escolhas simples se veem envoltas numa esfera analítica que, à primeira vista, pode até parecer algo muito bom. — Que legal, ela analisa tudo antes de tomar decisões. — Olha que pessoa organizada, não decide nada antes de analisar minuciosamente. Só que não! Analisar tão minuciosamente exige um gasto de energia bem grande que, torna uma decisão simples num plebiscito: devo escolher entre sim e não. E o que envolve essas possibilidades nem sempre é contemplado. Foca-se basicamente no ato de decidir.

Na incerta decisão da qual certa vez refere-se, eu precisava escolher entre encerrar o ciclo da maternidade ou deixar em aberto para possíveis possibilidades futuras. Eu já não queria manter essa possibilidade aberta mas me sentia culpada por não ter sido essa uma decisão consensual de dois envolvidos. Era como se a analítica aqui tivesse que decidir sozinha, mas contemplando o gosto dos dois. Eu tinha o poder da escolha. Em qualquer outro tempo, antes e depois da maternidade minha escolha era sempre pelo encerramento daquele ciclo, naquele momento, naqueles meses que antecediam o clímax da trama, eu escolhi a benevolência. Infeliz escolha. Benevolência com quem? Comigo nunca. Sigo reparando as podas que essa decisão me fez, porque achei que precisava agradar com minha escolha. Eta complexo de colonizada! Infelizmente, submeter-se também é uma escolha, apenas está imbuída de uma grande e total falta de visão amplificada do que pode vir a ser. Isso pesou como uma canga por tempo demais.
Cleonice

terça-feira, 23 de maio de 2017

Vapor do chá

Tarde chuvosa. Eu e uma xícara de chá conversamos longamente na mesa da cozinha. Olhamos a paisagem molhada, pensamos securas da vida e nos conformamos com a umidade do dia. Enquanto repriso trechos da peça trágico-cômica da minha vida privada, o embaçado se faz presente nas janelas do cômodo e nas lentes dos meus óculos e o vapor que sai da xícara e da minha boca, se espalha pelo ar, umedece meus olhos e minhas narinas. O líquido que tenta escorrer de ambos não é mera coincidência.
Revisitar antigos enredos desde o manuscrito e as lembranças iniciais de sua feitura trás, por vezes, sensações análogas às vivenciadas no tempo primeiro e, o que foi sentido volta a ser sentido, mas nunca do mesmo modo, nunca com a amplitude daquele instante. Primeiramente, porque não sou mais a mesma, e não há como sentir tudo igual porque o igual é faz de conta. Nada é igual, tudo se altera, o tempo, o espaço, a ação, a personagem e, assim, o sentimento rememorado é trazido à tona pelo vapor do chá, não podendo ser o mesmo vivenciado em tempo passado.

O que foi sentido ganhou um invólucro, deixou de estar na carne viva do momento de sentir, do instante em que a pulsão dor/amor/decepção/êxtase surpreendeu os sentidos. Não é uma máscara, mas uma casca para a ferida que ainda dói, que ainda requer cuidados, que ainda pode se abrir ou ser novamente ferida pelas ações que vierem a ser tomadas. Não se faz um mascaramento do fato, mas tenta-se viver socialmente em equilíbrio, sem rompantes de vitimismo ou encolhimentos autopiedosos dentro da própria casca. Tenta-se manter a sanidade intelectual, a criatividade artística, a saúde física, a libido em alta, os sonhos vivos, mas a sensibilidade de poetisa umedecem meus olhos vez ou outra.
Cleonice
Não estou tendo mais paciência comigo


Sentada aqui na cama observo o filme que as minhas lembranças põem em cartaz neste dia de domingo. São memórias de mulher ocidental latino-americana com sentimentos mistos e simples, únicos e complexos, repleta de culpas incutidas pela cultura na qual está inserida e pelas escolhas que fez e das quais se arrependeu ou pelas quais experimentou momentos felizes. São flashes de acontecimentos e, consequentemente, das situações que originaram esses acontecimentos. 
Me vejo, muitas vezes, fazendo escolhas sem ter uma visão ampla do contexto que me envolve, sem sequer imaginar possíveis entraves ou mesmo alguns conflitos que podem vir a me deixar num suspense involuntário. Não gosto de suspense. Nem das situações difíceis que o roteiro me coloca, mas vejo-me nelas devido às escolhas feitas enquanto não conseguia imaginar que uma narrativa pensada romanesca poderia tornar-se um entremeado de suspense com drama à brasileira. 
O mais duro é que a ficção da qual participo devido às tais escolhas feitas há dez mil anos atrás é uma realidade que me aterroriza no instante presente. Já houve tantos clímax pós conflitos e eu, meio que petrificada pelos momentos de suspense, não consegui dar um desfecho. Não estou tendo mais paciência comigo.
Cleonice

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Duas Histórias














Iam duas histórias amenas
pelos seus conhecidos caminhos
cuidando de singulares amenidades
tendo pensamentos comuns
falando amenas verdades
Ambas as histórias
iam na mesma direção
mas uma estava bem à frente
e a outra seguia seu ritmo próprio
cuidando pra não andar na contramão
Se encontram, então, nas suas distâncias
e passam a falar concordâncias
As diferenças se assemelham
em semelhanças amenas
e os interesses se aproximam
nas distâncias que as orientam
Duas histórias convergem
conversam, dialogam, se relacionam
passam a compor a mesma trama
do enredo que cria o drama
E a crítica dessa história
diz que há mais prosa poética
do que poesia
e por mais que a vida
queira por um ponto
vem a ficção e eterniza num conto

Cleonice

Definição de Muiteza